Professor Emérito da Unicamp


 

Professor Emérito da Unicamp

 

Em 1996 a Editora da UNESP publicou o livro "Humanismo e Compromisso" que retratou fielmente uma jornada de estudos dedicada a Octavio lanni. As organizadores do livro, Professoras Maria Izabel L. Faleiros e Regina Aida Crespo, tiveram rara felicidade na escolha do título. De fato, se alguma expressão sintetiza a vida pessoal e a trajetória intelectual de Ianni, ela deverá conter uma referência ao seu profundo, redobrado e recorrente interesse científico pelas coisas humanas, bem como seu compromisso — sempre renovado — com os avanços civilizatórios e com a justiça social.

No caso de Ianni, nada que é humano lhe é estranho. No caso de Ianni, nada do que é humano não pode ser aperfeiçoado. Sua obra é o mais cabal exemplo disso. Seria injusto — seria também apequená-la — colocá-la no campo estrito da sociologia, embora digam seus amigos tratar-se de um sociólogo "de plantão". Ianni é sempre sociólogo. Não descansa, não relaxa, nunca esquece esta condição. Tive oportunidades várias de vê-lo assim. Certa vez, em meio a uma grande pancadaria que se instalará no restaurante onde jantávamos, enquanto todos se abrigavam das garrafas que voavam, Ianni candidamente, em pé, na linha de fogo, indagava "qual era a atividade profissional que aqueles rapazes exerciam". De outra feita, flaguei-o, paciente e encantador, fazendo uma incrivelmente lúcida sociologia do renascimento nas ruas de Florença para um público composto de apenas uma criança: minha filha de 13 anos. Esta espécie de moto contínuo que apura seu pensamento extravasou, em muito, o campo da sociologia. Um simples olhar sobre o rol de suas obras demonstra sua facilidade de trânsito entre os vários campos das ciências humanas. Suas bens sucedidas incursões pela ciência política, pela economia política, pela antropologia e pela história reforçam os traços de um humanismo calcado na ideia marxista da totalidade social, que no caso de lanni, desborda o campo da ciência e entra pelas artes que tanto preza como a literatura, o teatro e o cinema.

Engajado no debate científico e político desde os anos 50, lanni produziu uma extensa e rica obra (quase 30 livros e uma centena de artigos) que, embora aparentemente dispersa em sua temática, mantém uma impressionante unidade e coerência de preocupação. O pensamento de lanni, voltado principalmente para o Brasil, ganha no seu decorrer, a partir de saturações, criticas e rupturas, contornos que vão estendendo sua área de abrangência. Na medida em que vai interpretando o Brasil, a formação da nação, sua história política e social, Ianni amplia seu interesse para América Latina, para os produtos do imperialismo, e, na medida em que seu instrumental conceitual e teórico se esgota em termos de explicação, vai forjando novos recursos interpretativos que o levaram, na fase atual de sua obra a indagar sobre a sociedade global, antítese da nação, do estado nacional, das histórias em paralelo.

Na feliz síntese de Renato Ortiz, "a proposta de lanni pressupõe portanto um deslocamento do olhar analítico". E as implicações deste deslocamento vão ficando claras na medida em que a obra avança no tempo e na transfiguração constante do próprio objeto. O resultado é que, de fato, a obra de Octávio Ianni é sem dúvida alguma, além de pioneira, a mais completa, na sociologia feita no Brasil e na América Latina, no que diz respeito à recente constituição de estruturas sociais globais e mundializadas. É necessário salientar que boa parte destes estudos já foram realizados na Unicamp.

Mas seria até mesmo injusto ressaltar apenas esta contribuição de Octávio lanni a ciência social brasileira. Digno de destaque estão suas contribuições críticas aos estudos da comunidade, sobre as relações sociais, sobre as relações de classe no Brasil, sobre a cultura brasileira, sobre o estado, sobre o populismo no Brasil e na América Latina, sobre a questão agrária e sobre a própria sociologia brasileira e latino-americana.

O compromisso de lanni refletiu profundamente na sua carreira docente, graduado em 1954, lanni foi logo contratado, por tratar-se de um dos melhores os que passara pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Em dez anos já era mestre, doutor e livre docente. Docente aposentado em 1969, por força do autoritarismo expresso no Ato institucional n° 5, lanni passou a lecionar em várias universidades do exterior: Columbia University, Universidade Autônoma do México, Oxford University, Universidade Complutense de Madrid, Universidade de Piza, entre outras.

Ao lado desta extensa obra, deste incansável trabalho de professor, Ianni foi um formador de quadros para a Ciência Social brasileira na medida em que orientou quase uma centena de estudantes de mestrado e doutorado.

Ingressando na Unicamp, lanni imediatamente passaria a ser considerado por seus colegas e alunos uma das "locomotivas" do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas dada sua alta capacidade de produção e de organização do trabalho acadêmico.

Mesmo aposentado compulsoriamente em 1997, Ianni continua vinculado à UNICAMP como Professor convidado do IFCH.

Ao vê-lo caminhando pelo campus, consultando as bibliotecas, não podemos deixar de recordar as palavras de Florestan Fernandes em seu depoimento sobre Octávio. "Recordo-me de Ianni, com seu olhar sério, tranquilo e ensimesmado ouvindo a aula numa troca de planos constante. Registrava e refletia, atento ao que eu expunha, perdido em suas divagações. Parecia que seu pensamento soltava, pondo em dúvida e acreditando (...). 
A palavra certa seria desconfiado. Como eu, levava para a faculdade contas a saldar com aquele mundo estranho".

O grande professor continua a ser o jovem recém-chegado de Itú, estudando na grande cidade, enfrentando o estranho mundo dos eruditos e tornando-se, passo a passo, um dos melhores dentre eles.

Octavio Ianni merece o título de Professor Emérito da Unicamp uma vez que esta qualidade já está reconhecida por seus alunos e colegas da universidade.

Campinas, 11 de novembro de 1999

Prof. Dr. José Tadeu Jorge
Prof. Geraldo Di Giovanni
Prof. Dr. Luiz Carlos da Silva Dantas

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